Eu etiqueta

By Mayra Soares terça-feira, janeiro 12, 2016 2 , , , , Permalink 0

O post de hoje tem como título o poema de Carlos Drummond de Andrade. Sabe o que é?

Com tanta estampa de logotipo enorme por aí eu só consegui lembrar dele.

 Eu etiqueta

“Em minha calça está grudado um nome

Que não é meu de batismo ou de cartório

Um nome… estranho.

Meu blusão traz lembrete de bebida

Que jamais pus na boca, nessa vida,

Em minha camiseta, a marca de cigarro

Que não fumo, até hoje não fumei.Jack DanielsMinhas meias falam de produtos

Que nunca experimentei

Mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido

De alguma coisa não provada

Por este provador de longa idade.

Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

Minha gravata e cinto e escova e pente,

Meu copo, minha xícara,

Minha toalha de banho e sabonete,

Meu isso, meu aquilo.

Desde a cabeça ao bico dos sapatos,

São mensagens,

Letras falantes,

Gritos visuais,

Ordens de uso, abuso, reincidências.

Costume, hábito, permência,

Indispensabilidade,

E fazem de mim homem-anúncio itinerante,

Escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.

jeremy-scott-moschino-Ronald-mcdonald-dress-grungecake-thumbnailÉ duro andar na moda, ainda que a moda

Seja negar minha identidade,

Trocá-la por mil, açambarcando

Todas as marcas registradas,

Todos os logotipos do mercado.

Com que inocência demito-me de ser

Eu que antes era e me sabia

Tão diverso de outros, tão mim mesmo,

Ser pensante sentinte e solitário

Com outros seres diversos e conscientes

De sua humana, invencível condição.

Agora sou anúncio

Ora vulgar ora bizarro.

Em língua nacional ou em qualquer língua

(Qualquer principalmente.)trend-moletom-kenzo-e13479815282291E nisto me comparo, tiro glória

De minha anulação.

Não sou – vê lá – anúncio contratado.

Eu é que mimosamente pago

Para anunciar, para vender

Em bares festas praias pérgulas piscinas,

E bem à vista exibo esta etiqueta

Global no corpo que desiste

De ser veste e sandália de uma essência

Tão viva, independente,

Que moda ou suborno algum a compromete.

Onde terei jogado fora

Meu gosto e capacidade de escolher,

Minhas idiossincrasias tão pessoais,

Tão minhas que no rosto se espelhavam

E cada gesto, cada olhar

Cada vinco da roupa

Sou gravado de forma universal,

Saio da estamparia, não de casa,

Da vitrine me tiram, recolocam,

Objeto pulsante mas objeto

Que se oferece como signo dos outros

Objetos estáticos, tarifados.celine6Por me ostentar assim, tão orgulhoso

De ser não eu, mas artigo industrial,

Peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem.

Meu nome novo é Coisa.

Eu sou a Coisa, coisamente.”

Acho que é isso, se eu disser que não amo esse moletom da Kenzo e essa t-shirt da Céline estarei mentindo vergonhosamente.

Só achei propício esse poema do sábio Drummond de Andrade porque é exatamente esta forte tendência que vivemos há algum tempo. Acho que são looks extremamente chamativos e que daqui alguns anos nos farão pensar: Como usávamos isso? hahahaha Coisas da vida, coisas da MODA, principalmente.

Porque ela é assim, muito do que a gente dizia que nunca usaria, hoje estamos usando e o pior (ou, talvez, melhor) AMANDO.

É isso, para mim a marca não é a coisa mais importante do look, claro que sou fashion lover assumida e sou fã desses estilistas tão renomados e respeitados.

Claro que uma bolsa com C duplo da Chanel fazem vários olhos brilharem.

Não sei o de vocês, mas os meus brilham sim. E não porque é simplesmente uma Chanel, mas porque é uma bolsa linda, com qualidade e que vai durar a vida toda, aquela que vale a pena o investimento. Sabe como?

Além do que, quando você veste uma grife, você veste aquele conceito também. E pra quem gosta de moda, tudo isso tem um grande significado.

Mas também isso não deve ser um motivo de ostentação nem a única coisa importante da vida.

A gente tem que se policiar e tentar perceber porque queremos ter as coisas. Se porque gostamos ou se porque todo mundo tem ou (na minha opinião, pior ainda) se porque pouquíssimas pessoas têm condições de ter.

Uma bolsa, um relógio, um celular etc, não nos torna melhores do que as outras pessoas, nem nos fazem subir um patamar acima delas.

Se queremos ser melhores, temos que mudar todos os dias, nossa forma de enxergar o mundo, observar como tratamos as pessoas, detectar nossos defeitos e lutar contra eles.

E, SEMPREEEE, saber que o look do dia é muito importante, mas que mais importante ainda é quem veste ele, por isso nenhuma marca/grife pode se destacar mais do que quem a veste.

Essa é minha dica de hoje.

Use sua estampa, seu look e o logo que você quiser.

Mas acrescente ao look do dia um belo sorriso, gentileza e simpatia, isso nunca sai de moda.

 

Bitocas!

 

 

 

 

 

 

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